Especialistas de diferentes áreas dão parecer sobre uma central nuclear em nosso estado
Flávio Antunes, com informações , da Ascom da UFS
A possível instalação de uma usina nuclear no Estado divide opiniões. A questão é se essa fonte de energia trará benefícios ou não para o Estado
O que mais chama a atenção em uma usina nuclear é a volumosa massa branca que sai do seu reator. À primeira vista, parece que toneladas de fumaça estão sendo jogadas no ar, poluindo o ambiente. Na verdade, essa massa é puro vapor de água. A energia nuclear está entre as fontes mais limpas que existem, e apresenta grande potencial elétrico.
Desde 2008, quando o governo federal sinalizou a ampliação da matriz energética nuclear brasileira, os sergipanos se veem diante da possibilidade de receber em seu território a primeira usina nuclear do Nordeste. Segundo a Eletronuclear, órgão responsável pela construção e operação do parque nuclear no país, a previsão é que até 2019 sejam instaladas as duas usinas da central de geração de energia da região, que deve ter capacidade para abrigar até seis unidades.
Caso Sergipe seja escolhido, o município de Canindé de São Francisco receberá a usina, pois apresenta condições necessárias para seu funcionamento. Cada usina deverá ter uma potência de 1000 megawatts elétricos (MW) e custará pelo menos R$ 7 bilhões. Para se ter idéia, 1MW tem possibilidade de fornecer energia para 3 mil famílias.
Quatro Estados do Nordeste disputam a preferência para a instalação da central nuclear: Alagoas, Bahia, Pernambuco e Sergipe. A argumentação em comum entre os candidatos é a necessidade de receber os investimentos provenientes da instalação das usinas.
A cidade de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, é um exemplo desse desenvolvimento. Com a geração de energia e o pagamento de royalties, a cidade recebeu melhor estrutura, como asfaltamento, escola, hospital. Também houve oferta de mais empregos, tanto mão de obra especializada como trabalhadores da construção civil. Hoje, um percentual grande da população local desempenha atividades na usina.
A energia nuclear é uma fonte considerada limpa, pois no processo de geração de calor não há emissão de gases poluentes, ao contrário do que ocorre em outras usinas termoelétricas que utilizam carvão e derivados do petróleo. Além disso, não é afetada por variações climáticas, emite pequena quantidade de rejeito radioativo e exige pouco espaço para funcionamento, conforme informações da Eletronuclear.
Para se ter ideia, uma única pastilha de dióxido de urânio (UO2), o combustível da usina nuclear, do tamanho de um dedal, é capaz de abastecer uma casa por um ano. Um quilo dessas pastilhas gera energia equivalente a 55 vagões de trem carregados de carvão ou de seis caminhões-tanque cheios de óleo combustível.
Mas, o uso da tecnologia nuclear ainda divide opiniões entre estudiosos e abre espaço para debates sobre a viabilidade do projeto no Nordeste, seus riscos e benefícios.
Debate
A diversificação das fontes de energia no Brasil partiu da necessidade de diminuir a dependência das grandes usinas hidroelétricas, que apresentam aproximadamente 80% de participação do total de eletricidade gerada no país, de acordo com dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). O motivo é que as hidroelétricas estão sujeitas a fatores climáticos que podem afetar o abastecimento de energia, além do impacto ambiental causado no local onde são instaladas.
No mundo inteiro, é cada vez maior o movimento pela redução do uso de combustíveis fósseis para obter energia, pois durante o processo há emissão de gases que contribuem para o efeito estufa. Assim, fontes de energia consideradas limpas, a exemplo da nuclear, aparecem como uma opção recorrente para suprir a demanda energética dos países, incluindo o Brasil.
A central nuclear de Angra dos Reis é a primeira experiência do Brasil com a utilização de tecnologia nuclear para finalidade energética. De acordo com a Eletronuclear, Angra 1 começou a funcionar em 1985, com capacidade de gerar 657 MW. Em 2000, Angra 2 iniciou atividades, com capacidade de 1350 MW, o suficiente para abastecer metade do consumo de todo o Estado do Rio de Janeiro. As duas usinas juntas representam 2,8% de participação na produção de energia elétrica no país. Angra 3 deverá começar a funcionar em 2014, com potência de 1350 MW.
Conforme explica a professora Ana Figueiredo Maia, do Departamento de Física da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e especialista em Engenharia Nuclear, a implantação da central nuclear no Nordeste é uma opção que deve ser considerada. “É uma fonte de energia que atende à necessidade de ampliação da matriz energética do país. Energia e desenvolvimento econômico estão interligados. Para o país crescer nos próximos anos, é preciso gerar mais energia”, afirma.
Percebe-se que a atuação da fonte nuclear está crescendo no mundo. De 1973 para 2007 ela saltou de 3,3% de participação para 13,8%, segundo dados da International Energy Agency (IEA). A fonte mais consumida continua sendo o carvão mineral, que representa uma fatia de 41,5% da produção de energia elétrica mundial. O gás natural desbancou o petróleo, ocupando o segundo lugar com 20,9%. Em 34 anos, a utilização de fontes renováveis como a solar, eólica e geotérmica quadruplicou, passando para uma participação de 2,6% no cenário energético.
Para a professora Ana Maia, o crescimento do uso da energia nuclear se deve ao aumento das medidas de segurança nas usinas e também devido à preocupação com as mudanças climáticas em todo o mundo, conseqüência do aquecimento global.
Porém, existem opiniões diferentes quanto à ampliação do parque nuclear brasileiro. O professor Luiz Carlos Fontes, atuante no Núcleo de Engenharia de Pesca da UFS e na gestão do Comitê da Bacia do Rio São Francisco, acredita que é preciso amadurecer a idéia e esclarecer as medidas ambientais a serem aplicadas antes de se tomar decisões. Segundo ele, o Estado já é auto-suficiente em energia e a principal matriz é a hidroelétrica.
Para Luiz Carlos, uma das preocupações é com a localização da central nuclear em Sergipe: nas proximidades do rio São Francisco, fonte de água que abastece vários Estados nordestinos. “Uma grande quantidade de água é necessária para movimentar as turbinas e resfriar a usina. Quando ela retorna, está aquecida e provoca impacto. Uma coisa é devolver essa água para o mar, e outra é quando se trata de um rio, cuja vazão de água é menor e o sistema mais frágil”.
Ele também faz uma crítica ao modo como o tema está sendo conduzido. “Esperava que essa discussão chegasse à gestão do Comitê do São Francisco e outros órgãos de proteção ambiental, mas isso não está acontecendo”.
De forma semelhante pensa o professor Adauto de Souza Ribeiro, responsável pelo Núcleo de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação da UFS. O professor já trabalhou com energia nuclear e reconhece o avanço proporcionado por essa fonte, mas acredita que a tendência atual é outra. “Sou a favor do desenvolvimento sustentável. Creio que seria melhor investir o montante destinado à energia nuclear em outras fontes renováveis, como eólica e solar”.
O biólogo também diz que o assunto está sendo pouco debatido entre o governo de Sergipe e as instituições e pessoas ligadas ao setor ambiental. “É um assunto de Estado, poucas pessoas têm acesso à tomada das decisões. Além disso, há muito dinheiro envolvido e participação de empresas grandes”.
Riscos
Os riscos de contaminação radioativa são o principal entrave à aceitação da tecnologia nuclear. Depois de tragédias como Chernobil, em 1986, na Ucrânia, e do acidente de Three Mile Island, em 1979, nos Estados Unidos, em que milhares de pessoas foram e continuam sendo afetadas pela radiação, houve uma caminhada antinuclear no mundo inteiro. Dos anos 90 em diante, a fonte passou a ser bem-vista novamente.
“Toda geração de energia apresenta certo risco”, afirma a física Ana Maia. “Mas, desde o acidente de Chernobil, há uma constante busca por usinas mais seguras. Atualmente, o risco maior se refere à gerência dos rejeitos radioativos. O Brasil possui estrutura técnica para armazenar esse rejeito de forma segura por muitos anos, mas o controle político dele ainda é imprevisível. Existe o medo de que, em algum momento, uma gestão equivocada faça mau uso do rejeito”.
O professor Milthon Serna Silva, do Departamento de Engenharia Elétrica, enfatiza a segurança das usinas nucleares. “É uma energia que pode ser aproveitada com o devido cuidado. Nunca houve ocorrência ou acontecimento de risco significativo em Angra em 20 anos de funcionamento. Ela está entre as 10 usinas mais seguras do mundo”.
Uma usina dura em média 30 anos. Com o aprimoramento tecnológico, elas passaram a durar até 80 anos. No Brasil, a depender do nível de atividade radioativa, o rejeito é armazenado em galpões ou na piscina da própria usina, enquanto não há destinação definitiva para ele.
Além do risco de vazamento e contaminação na própria central, existem denúncias de que a extração do minério da natureza pode espalhar radioatividade na região, que é altamente prejudicial à saúde humana. Ativistas da ONG Greenpeace do Brasil relatam que a mina de urânio de Caetité, no interior da Bahia, está contaminando a água dos poços da região. A estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB) informou à imprensa que o nível de radioatividade detectado na região não está alterado.
Diversificação
Uma opção apontada para solucionar o quadro energético do país é o investimento em fontes de energia alternativas: eólica e solar. Segundo o professor Milthon Serna, especialista em geração de energia por fontes não convencionais, o setor está em crescimento. Há, inclusive, um projeto de implantação do primeiro parque eólico de Sergipe em 2012, com potencial de 30MW e um custo aproximado de 120 milhões de reais.
“Já existem parques eólicos no Brasil, mas ainda não há de energia solar, com exceção das pequenas iniciativas. A grande vantagem dessas fontes é que não há risco de contaminação, é uma energia limpa, que a natureza oferece de graça. A desvantagem é que ainda é cara e não tão eficiente quanto outras. Por exemplo, a potência média de uma usina nuclear é de 1000 MW, enquanto um parque eólico está entre 50 e 100 MW, levando em consideração que o custo e o tempo de construção delas são diferentes também”, diz.
O professor Adauto Ribeiro entende que, além de investir nessas fontes, é necessário adotar um modelo de consumo energético compatível com as preocupações ambientais do mundo. “A questão é se os países poderão continuar com esse padrão de consumo no futuro. É preciso reciclar, reduzir, evitar desperdícios, para alcançar um patamar de equilíbrio e sustentabilidade”.
Apesar das opiniões divergentes, os pesquisadores são unânimes quando se refere ao apoio à campanha pela diversificação da matriz energética no Brasil, algo que já vem acontecendo em outros países. A biomassa, por exemplo, aparece como uma das fontes com grande potencial tanto elétrico quanto para obtenção de biodiesel e etanol. E cada vez mais se investe em fontes renováveis, menos poluentes, de forma que progresso e meio ambiente possam conviver sem se excluir mutuamente.
Fonte: http://emsergipe.globo.com/noticias/default.asp?act=visualizar®iao=3&id=120124&s=sergipe&c=Educa%E7%E3o%20&cidade=